Skip to content

Pequenos Agricultores e Agricultoras realizam 5ª Festa da Semente Crioula

abril 4, 2011

Aconteceu no último final de semana (19 e 20) de março o lançamento Estadual da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida. A mesma está sendo realiza pela coordenação do MPA (movimento dos pequenos agricultores) e demais organizações da Via Campesina. A campanha foi disseminada durante a Festa das Sementes Crioulas de Anchieta.

Na ocasião foi realizado Seminário com a tecnóloga da Gerencia Geral de toxicologia da ANVISA Heloisa Rey Farza e com Walter Israel da Silva da coordenação Nacional do MPA e da campanha. O evento contou com a participação grande público. Estavam presentes camponeses, parlamentares, movimentos sociais da Via Campesina, Sindicatos, pastorais sociais e igreja.

O seminário denunciou os problemas causados pelos agrotóxicos, propôs alternativas e destacou experiências agroecologicas realizadas além de motivar as pessoas e organizações presentes a se somarem a campanha.

Segundo a representante da ANVISA “foi um bom momento para passar informações sobre coisas que são do cotidiano destas mesmas pessoas, nas quais elas estão sensibilizadas”… ANVISA já vem debatendo anualmente em seminário o problema dos agrotóxicos

O que é a campanha

A campanha é um esforço coletivo, assumido por um conjunto de organizações e pessoas de combater a utilização de Agrotóxicos e a ação de suas empresas (produtoras e comercializadoras) explicitando as contradições geradas pelo modelo de produção imposto pelo agronegócio.

Desde 2008 o Brasil é o maior consumidor mundial de venenos com vendas que somam 6,6bilhões de dólares e 7,2 bilhões em 2009. Ao dividir a quantidade de venenos usada pelo número de habitantes vemos que usados 5,2kg de veneno por pessoa por ano no Brasil. Diante disso o MPA lançou a Campanha Permanente Contra o Uso de Agrotóxicos e Pela Vida em seu 3º Encontro Nacional em abril de 2010. Posteriormente assumida pela Via Campesina e por dezenas de entidades e organizações populares preocupadas com os efeitos nocivos dos Agrotóxicos

Veja na tabela abaixo exemplos de alimentos com índice de agrotóxicos acima do tolerado. Fonte AVISA

Alimentos Contaminação Alimentos Contaminação
Pimentão 80% Couve 44,1%
Uva 56,4% Mamão 38,8%
Pepino 54,8% Alface 38,4%
Morango 50,8% Tomate 32,6%
Abacaxi 44,1% Cenoura 24,8%

Objetivos da campanha

I – construir um processo de conscientização na sociedade sobre os malefícios dos Agrotóxicos, denunciando assim todos os seus efeitos degradantes na saúde, no meio ambiente, etc.

II – Combater com ações práticas (denuncias, processo jurídicos, etc.) as empresa que produzem e comercializam agrotóxicos.

III – pautar na sociedade a necessidade de mudança de modelo de agricultura. O atual modelo produz comida envenenada, e prejudica tanto os trabalhadores rurais, quando os consumidores destes alimentos.

IV – fazer da campanha um espaço de construção de unidade entre ambientalistas, camponeses, trabalhadores urbanos, consumidores de alimentos e todos aqueles que prezam pela produção de um alimento saudável que respeite ao meio ambiente.

V – explicitar a necessidade e o potencial que o Brasil tem de produzir alimentos saudáveis, em convívio com o meio ambiente e para alimentar o povo trabalhador, com base em princípios agroecológico.

As organizações que compõe a campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida acreditam que a terra possui função social de assegurar a sobrevivência das famílias que nela precisam viver e de produzir alimentos saudáveis.

Como contra ponto a agricultura convencional, propomos a agroecologia. São inúmeras as experiências de produção de alimentos saudáveis.

Fonte: MPA Santa Catarina.

Agrotóxicos entram na pauta da Câmara

abril 1, 2011
seg, 2011-03-28 – BRASIL DE FATO

Subcomissão específica sobre venenos agrícolas deve ser instalada quarta-feira.

28/03/2011  – Vinicius Mansur, de Brasília (DF)

 

A Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou na semana passada a criação da subcomissão especial sobre o uso de agrotóxicos. De acordo com o deputado Padre João (PT-MG), autor do requerimento da subcomissão, os trabalhos devem começar nesta quarta-feira (30).

“Falta só entendimento com o presidente da comissão [Saraiva Felipe PMDB-MG]. Mas precisamos começar logo, devemos começar esta quarta. Os agrotóxicos estão vitimando os trabalhadores do campo, o meio ambiente e os consumidores. Até o leite materno já está sendo contaminado. Muito se preocupa com alimentação balanceada, mas pouco se fala dos agrotóxicos”.

Na semana passada, uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) revelou que o leite materno de mulheres de Lucas do Rio Verde – cidade da região central de Mato Grosso, em um dos principais municípios produtores de grãos deste estado – está contaminado por agrotóxicos.

A finalidade da subcomissão proposta pelo Deputado Padre João é avaliar as políticas implementadas para o setor, assim como propor medidas sobre a comercialização, utilização, controle e fiscalização dos agrotóxicos e seus componentes. Outra meta é o levantamento e análise de dados sobre a intoxicação, aposentadoria por invalidez, falecimento de trabalhadores rurais por uso dos agrotóxicos e suas consequências na saúde da população.

Na manhã do dia 7 de abril – Dia Mundial da Saúde, a Comissão de Seguridade Social e Família também realizará uma audiência pública sobre os agrotóxicos. Para este dia, mais de 20 organizações sociais preparam o lançamento de uma campanha nacional contra o uso dos agrotóxicos, em Brasília.

Como o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos?

março 2, 2011

A pesquisadora Lia Giraldo, da Fiocruz, analisa o papel do lobby que transformou o país no principal consumidor de venenos agrícolas

Raquel Júnia

EPSJV/Fiocruz

A pesquisadora Lia Giraldo explica como os agrotóxicos foram introduzidos no Brasil a ponto de o país ser hoje o campeão mundial no uso de venenos. Lia é pesquisadora do departamento de saúde coletiva, do laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho, da Fiocruz Pernambuco. Ela coordena um grupo de pesquisadores responsáveis por revisar os estudos científicos existentes sobre onze agrotóxicos que estão em processo de revisão pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O uso de agrotóxicos no Brasil vem crescendo ano após ano. O país lidera o ranking dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Por que consumimos tanto veneno?

Desde a década de 70, exatamente no ano de 1976, o governo criou um plano nacional de defensivos agrícolas. Dentro do modelo da Revolução Verde os países produtores desses agroquímicos pressionaram os governos, através das agências internacionais, para facilitar a entrada desse pacote tecnológico. Em 1976, o Brasil criou uma lei do plano nacional de defensivos agrícolas na qual condiciona o crédito rural ao uso de agrotóxicos. Assim, parte desse recurso captado deveria ser utilizada em compra de agrotóxicos, que eles chamavam, com um eufemismo, de defensivos agrícolas. Então, com isso, os agricultores foram praticamente obrigados a adquirir esse pacote tecnológico. E também com muita rapidez foi formatado um modelo tecnológico de produção que ficou dependente desses insumos, e isso aliado ainda a uma concentração de terras, mecanização, com a utilização de muito menos mão de obra. Tivemos um grande êxodo rural: de lá para cá o Brasil mudou completamente, era um país rural e virou um país urbano, seguindo um fenômeno que aconteceu também em outros países. Então, o Brasil se rendeu às pressões econômicas internacionais na defesa desse modelo. Depois disso houve muito lobby político, inclusive, tivemos ministro ligado a empresas produtoras de agrotóxicos. E isso fez com que o Brasil não só passasse a ser consumidor, mas também produtor desses produtos. As cinco maiores produtoras de agrotóxicos têm fábricas no Brasil – Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e Monsanto. E depois, dentro dessa linha, e associado ao ciclo de algumas monoculturas como a soja, o algodão, o café e a cana de açúcar, esse modelo casou bem com o modelo de produção de monocultura extensiva, demandando cada vez mais terras, cada vez expulsando mais o pessoal do campo para a cidade. Na divisão internacional do capital, o Brasil ficou com esse perfil de exportador de commodities, com um modelo de desenvolvimento baseado no agronegócio e essa é a explicação para sermos os campeões no uso de agrotóxicos.

A pressão para que os agricultores passassem a usar agrotóxicos também foi colocada em prática nos outros países do hemisfério sul?

Sim. Se analisarmos países da América Latina, como a Argentina e o Uruguai, cada um com suas características, perceberemos que isso se repete. Mas no Brasil esse quadro ganha proporções maiores com o nosso gigantismo territorial e também facilidades e estratégias de abertura para o capital externo, com um governo absolutamente permeável. O Brasil estranhamente tem dois ministérios da agricultura, um para o agronegócio, que é o “gordão”, com bastante dinheiro, e outro para a agricultura familiar, que é magrinho e com pouquinho dinheiro. São dois ministérios da agricultura com políticas completamente divergentes. E por onde a bancada ruralista consegue pressionar a Casa Civil? Por dentro. Criaram uma estrutura por dentro do governo, que é o Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], onde passam os interesses do agronegócio.

E quais são as características desses agrotóxicos hoje. Eles são mais tóxicos do que nos anos 70?

A evolução da toxidade tem mais a ver com a resistência das pragas aos produtos. A motivação da evolução não é para produzir produtos menos tóxicos para a saúde ou o meio ambiente. Mas sim porque a natureza reage e as pragas se tornam mais resistentes, e as empresas são obrigadas a produzir novas moléculas para os agrotóxicos serem efetivos. Isso está aliado também com o aumento da quantidade de uso, porque enquanto eles não conseguem produzir uma nova molécula a qual a praga seja mais sensível, eles aumentam a carga de agrotóxico. Então, existe uma toxidade e um perigo com a introdução de novas moléculas, que são mais tóxicas para os seres vivos, portanto para nós, seres humanos também – para as células, para o DNA, para as estruturas biológicas. Mas também há um grande perigo quando se aumenta a concentração de um produto que está tendo baixa eficácia e se aplica esse produto sozinho ou associado a outro ou a um coquetel de outros produtos tóxicos. Se, aumentando a concentração de determinado produto, ele já começar a ameaçar a saúde pública, esse produto já não pode mais ser usado. Aí inventam uma outra molécula, e assim vai. E como as experiências feitas para o registro são baseadas apenas em efeitos agudos – ou seja, a morte – e não há testes de longo prazo principalmente para a saúde humana, a nova molécula é registrada. Mas uma coisa é ver se um ratinho desenvolve câncer em seis meses ou um ano e outra coisa é uma pessoa ficar exposta durante muitos anos. Então, esses aspectos não são levados em consideração para o registro de novos produtos e, com isso, eles têm conseguido registrá-los, até que nós comecemos a registrar novamente danos à saúde e ao meio ambiente e uma série de efeitos negativos que vão então permitir que a agência reguladora casse o registro ou restrinja os produtos.

E quais as consequências disso para o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores rurais e também para a população de modo geral?

As consequências vistas em estudos experimentais são evidências importantes, mas não são suficientes. Porque pode-se alegar que foi em determinado contexto, que é para uma determinada espécie e não para outra, então cria-se sempre uma flexibilidade na hora de extrapolar os dados para a saúde humana. É muito difícil estabelecer essas regras de consumo e de proteção baseando-se nos parâmetros que são adotados, porque eles são criados justamente para proteger o capital. É necessário, portanto, que tenhamos outros indicadores de vigilância da saúde que não sejam apenas esses restritos a estudos experimentais em animais, mas sim baseados em estudos clínicos e epidemiológicos. Há uma resistência quanto a esses estudos serem internalizados como parâmetros para tomar as decisões de registro ou de captação de uma molécula, porque ou os estudos não existem, ou são muito restritos. O governo, as universidades e mesmo as empresas não incentivam esses estudos e a falta desse tipo de informação é uma política para manter a outra política, porque obviamente favorece a manutenção do modelo. Mas existem muitas evidências de danos dos agrotóxicos à saúde, só que, infelizmente, pelos protocolos que são estabelecidos, esses danos não são reconhecidos para a tomada de decisão.

 (Publicada no site do Jornal Brasil de Fato   http://www.brasildefato.com.br/node/5754)

Agrotóxicos sob suspeita

março 2, 2011